Em setembro de 2011, John Kemp, analista sênior da Reuters e especialista em petróleo, foi chamado para fazer um estudo sobre os impactos e lições que poderiam ser aprendidas para o futuro em relação à ação coordenada pela International Energy Agency (IEA) naquele ano, que liberou 60 milhões de barris de petróleo em resposta à interrupção das exportações de petróleo da Líbia por causa da guerra civil.
O estudo foi intitulado como “Market reaction to the IEA stock release: Perception management” (Reação do mercado ao lançamento de ações da IEA: gerenciamento de percepção).
A principal conclusão na época foi de que o lançamento das reservas causou uma queda imediata, mas modesta, nos preços à vista e uma queda maior nos spreads, mas revertido posteriormente.
Neste caso, foi verificado que o efeito em si da ação dos países foi limitado. Isso porque, embora os preços tenham caído, o fato é que eles já vinham caindo antes do anúncio, e as quedas adicionais foram totalmente revertidas em poucas semanas.
Para o autor do estudo, a capacidade limitada da oferta dos países demandantes também contribui para limitar o seu poder de influenciar mercado. Mesmo que os países membros da IEA tenham uma grande quantidade de reservas de petróleo, eles não conseguem manter a expansão da oferta de forma definitiva.
“No final das contas, a liberação confirmada de menos de 60 milhões de barris, com uma vaga promessa de mais – que não foi confirmada e que provavelmente seria menos de 75 milhões no total -, foi menor do que os traders anteciparam, fazendo com que os preços e spreads se recuperassem em seguida”.
Segundo mostrou Kemp no estudo, a análise pós-evento da reação do mercado ao lançamento das reservas em 2011 sugeriu várias lições aplicáveis uma década depois.
Ao todo, podemos elencar três efeitos principais deste tipo de evento sobre o comportamento dos mercados:
- Os lançamentos de reservas têm apenas um impacto limitado e de curto prazo sobre os preços e spreads. Eles podem alterar a trajetória do mercado em comparação com um cenário em que nenhum estoque é liberado, mas isso não está totalmente claro.
- Os lançamentos de ações demoram tanto para se organizar que, quando são anunciados, os preços costumam estar caindo, pois o pior da sensação de crise já foi passado.
- Os negociantes de petróleo são instintivamente céticos sobre a eficácia da intervenção governamental, especialmente usando um estoque finito de reservas para influenciar os preços com base em um fluxo contínuo de produção e consumo.
Diante disso, o analista colocou em suas considerações que os formuladores de políticas precisam “ter todos os detalhes da liberação resolvidos antes do anúncio para criar uma narrativa convincente em torno da intervenção e maximizar o impacto psicológico das liberações de reservas”.
De volta ao presente
Em artigo publicado hoje na Reuters (24/11), Kemp disse que as lições foram parcialmente aprendidas e integradas nas decisões recentes. Porém, falhas na coordenação mostram que alguns aprendizados não foram incorporados.
“As autoridades americanas estavam prontas para anunciar a mecânica detalhada das vendas da SPR imediatamente na terça-feira. Mas a falta de compromissos firmes do Japão, da Coreia do Sul e especialmente da China nas primeiras 24 horas após o anúncio minou o impacto psicológico que a coordenação internacional deveria causar”, disse o analista em sua coluna na Reuters.
