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Em 2022, o rumo da bolsa (e da economia) dependerá do preço do petróleo

Por :
Tales Rabelo Freitas
Atualizado: Dec 30, 2021, 13:55 UTC

O Banco Central brasileiro tem reagido integralmente ao aumento da inflação. Esta, por sua vez, tem sido afetada, em grande medida, pelos preços dos combustíveis, os quais são determinados pelas oscilações do petróleo no mercado internacional.

Em 2022, o rumo da bolsa (e da economia) dependerá do preço do petróleo

O Banco Central do Brasil (BC) já deixou claro que perseguirá implacavelmente a inflação, nem que isso tenha que custar a recuperação econômica e os empregos.

Para Roberto Campos Neto, presidente do BC, é preciso criar um choque recessivo para colocar a inflação no lugar e, no longo prazo, permitir que a economia cresça de forma sustentável.

O problema é que, como já mostrei aqui, o Banco Central (BC) está lutando com instrumentos errados, de modo que seus esforços têm pouco contribuído para controlar as principais variáveis que determinaram o ritmo da inflação desde o início da pandemia: o câmbio e os combustíveis.

O fato é que o descontrole do nível de preços é um fenômeno global, verificado em praticamente todos os países do mundo.

A principal crítica de alguns economistas é que os juros é um instrumento usado para combater a inflação quando esta é derivada de fatores de demanda e não de oferta, como é o caso de agora.

As restrições de mobilidade para o combate da pandemia desequilibrou as cadeias globais de produção e interrompeu o fornecimento de commodities e componentes industriais.

A forte subida do petróleo encareceu os combustíveis. No ano, só a gasolina aumentou mais de 70%. Isso torna os combustíveis o principal vilão da alta inflacionária.

Só esse componente foi responsável por 0,72 pontos percentuais do IPCA total de novembro, que ficou em 0,95%. Enquanto isso, os preços dos outros grupos, como alimentos, bebidas, saúde e gastos pessoais vêm caindo consideravelmente nos últimos meses.

Banco Central persegue algo que não pode controlar

Ao insistir no forte choque monetário, que levou a Selic de 2% para 9,75% em menos de um ano, o Banco Central se mostra como reagente de um fator externo que não está ao seu alcance. 

Isso porque a política de preços da Petrobras tem feito ajustes nos combustíveis com base no preço da commodity energética no mercado internacional.

Em relação a isso, não é difícil perceber que o BCB tem pouco poder para afetar os preços do petróleo no mundo.

Dessa forma, o futuro da inflação brasileira (e da economia como um todo) está, indiretamente, nas mãos dos negociantes de petróleo. Se estes aumentarem a demanda pelos contratos de compra, podemos esperar a manutenção da inflação nos próximos meses. Consequentemente, isso induzirá o BC reagir com mais aumentos de juros (além dos quais já estão programados). 

Como resultado, tanto a bolsa de valores quanto a economia podem ir pro vinagre, pois é inviável esperar investidores e empresários tomando risco em um cenário de estagnação e com juros maiores do que 12% ao ano.

O contrário ocorrerá se o petróleo melhorar de preço no mercado internacional. A queda dos combustíveis arrefecerá a inflação e poderá acalmar a mão pesada do BC sobre os juros.

Esse cenário causará uma melhora nas expectativas dos investidores, que irão correr para a renda variável motivados pela visão de um horizonte com juros mais baixos.

Resumindo: tudo dependerá de onde o petróleo irá nos próximos meses. Portanto, você, investidor brasileiro, fique atento a isso.

BC mira inflação mas acerta a recessão

Se tem uma coisa que a autoridade monetária brasileira tem total poder é de determinar os rumos do mercado financeiro e da atividade econômica.

Primeiramente, temos que o aumento desenfreado dos juros afetou fortemente o Ibovespa, que, desde junho, caiu cerca de 20% com o encarecimento do capital.

Mas não é só de bolsa de valores que vive a população, não é mesmo?

O aperto na Selic também tem penalizado intensamente a atividade econômica, jogando o país para uma recessão técnica (quando há dois trimestres seguidos de queda no PIB).

Entretanto, não dá para culparmos totalmente o Banco Central pelo fracasso econômico. A bagunça política e falta de planejamento das políticas econômicas e sociais têm contribuído com boa parcela do pessimismo dos agentes econômicos.

Há economistas, inclusive o próprio Campos Neto, que afirmam que a reação do BC de elevar a Selic é apenas um subproduto da condução irresponsável da política de gastos por parte do governo federal e do congresso, cuja aprovação da PEC dos Precatórios colocou um fim simbólico à regra do teto de gastos. 

Com o descontrole fiscal, sobrou para o BC o papel de compensar o conjunto de estímulos, com uma contração monetária, para tentar manter o nível de preços sob controle.

Porém, o aumento da Selic praticamente eliminaria os efeitos da própria PEC dos Precatórios. Isso porque a subida dos juros pressionará os gastos com serviço da dívida, o que diminuirá, consequentemente, o espaço fiscal aberto pela própria PEC.

A dívida do governo, sob uma taxa Selic que poderá chegar a 12% em 2022, vai subir consideravelmente, de modo que eliminará quase que totalmente o espaço fiscal aberto pela PEC 23.

Diante desse descompasso entre política fiscal e monetária, além dos imbróglios políticos que nos aguardam, é de imaginar que o brasileiro consciente dificilmente esperará algo positivo na economia em 2022. 

Já na bolsa de valores, a depender do petróleo e da reação do Banco Central, talvez dê para visualizar uma recuperação já nos primeiros meses do ano, pois economia real e mercado financeiro nem sempre andam juntos.

Sobre o Autor

Tales é Doutor em Economia pela UFRGS. Realiza pesquisas sobre economia institucional, macroeconomia, mercado financeiro, economia brasileira e desenvolvimento econômico, além de trabalhar com cursos de educação financeira.

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